A periferia tem espaço na moda?
Vimos com a 1° edição do Rio Fashion Week que a estética periférica está tomada pelos holofotes. Mas muito antes das passarelas voltarem seus olhos para a favela, seus códigos já eram apropriados, inclusive por grandes casas de luxo.
Em 2018, Virgil Abloh assumiu a direção criativa da linha masculina da Louis Vuitton. Sua chegada marcou uma virada simbólica: a estética tradicional da maison passou a dialogar diretamente com a rua, misturando alfaiataria com referências urbanas.
Mas a pergunta que permanece é:
qual é, de fato, o problema em ver a estética periférica ganhar espaço dentro das grandes marcas?
A questão não está na visibilidade, mas em quem se beneficia dela.
A história que eu documento hoje revela um ponto mais profundo: a estética que nasce da escassez, da desigualdade e da necessidade está sendo elevada ao status de tendência, enquanto aqueles que a criaram seguem à margem. São forçados a escolher entre sustentar o próprio sonho ou garantir a sobrevivência.
Assistimos a estética subir. Mas nem todos sobem com ela.
A mente por trás da marca- Catita
Theodora Jesus tem 36 anos, nasceu na cidade de São Paulo em uma quebrada chamada Arpoador. É mãe solo e também é figurinista, stilyst, empreendedora e a artista responsável pela genialidade que mora na marca Catita.
Catita nasce da urgência. Da inquietação de quem precisa existir para além das limitações impostas. É através da marca que Theodora resiste diariamente aos atravessamentos de ser uma mulher preta em um sistema que invisibiliza trajetórias como a dela.
O amor pela moda nasceu com ela. Vinda de um berço artístico, ela compreendeu desde cedo que criar era uma forma de projetar futuros para além dos limites impostos a quem cresce na favela.
Seu primeiro vislumbre foi no clipe assinado como assistente de figurino da cantora Karol Conká. Hoje, a moda existe para ela como ato político e como afirmação de sua identidade ao mundo.

A realidade que escancara a apropriação da estética periférica
Quando eu tive o prazer de trabalhar com a Theo, vi a resposta encarnada para a pergunta que abre esse texto.
Será que os diretores criativos que hoje incorporam a estética periférica à moda, atravessam as mesmas fricções que Theodora enfrenta diariamente para legitimar sua arte? Carregam no corpo as experiências que moldam esse olhar? Conhecem, de dentro, as camadas que transformam sobrevivência em criação?
Mais do que isso: precisam, como ela, defender constantemente a origem das próprias referências? Ou a estética lhes chega já filtrada, limpa de conflito, pronta para consumo?
E, sobretudo, já foram colocados diante da escolha mais brutal, a de decidir entre sustentar um sonho ou garantir o básico para viver?
As cores, os recortes, as texturas e tudo o que compõe a estética periférica, não surgem do acaso. Nascem de quem viu, sentiu e transformou a realidade em arte. E a favela, sabemos, nunca foi ficção, é bagulho louco!!!
Homenagem
Eu pude dizer isso a ela pessoalmente ,mas registro aqui mais uma vez, minha profunda admiração por Theodora Jesus.
Mulheres como Theo que são em essência arquivistas da cultura, constroem memória e garantem que histórias não sejam apagadas. Sua arte merece atravessar fronteiras, ganhar o mundo e ser reconhecida à altura de sua potência.
Theo, que você continue encontrando no seu filho a força necessária para enfrentar as estruturas que insistem em te limitar e que siga transformando a moda em um ato político.


