A exportação do BrasilCore

Com a participação do Brasil na Copa do Mundo, um estilo que já pulsava nas ruas, na periferia e nas arquibancadas brasileiras ganhou um nome de exportação: Brasilcore. E aqui está o detalhe que não deixaremos passar batido: pra grande parte do Brasil isso não é tendência, é identidade. O mesmo símbolo que se tornou tendência global sempre foi marginalizado quando usado por quem o originou.

Foto by: Voz das comunidades

O mecanismo da exportação

O Brasilcore nasceu nas zonas periféricas da cidade e é compartilhado pelo povo que viveu, cresceu e passou por ali. Pode até se espalhar pra fora da sua raiz, o problema nunca será nossa cultura ser vista e usada. O problema começa quando ela migra pra fora do seu lugar de criação, pra quem nunca viveu o processo que constrói o Brasilcore, e só aí passa a valer alguma coisa.

A exportação começa assim: o mesmo chinelo, a mesma camiseta larga, o mesmo Juliet que sempre foram rotulados como “deselegantes”, “de mau gosto”, “de pobre” ou “brega” quando usados por quem é da periferia, viram capa de revista, desfile e tendência quando a elite e os estrangeiros resolvem usar como referência. Não é o objeto que muda. Muda quem está autorizado a usá-lo sem ser julgado, e muda quem lucra com isso. Quem inventou o estilo, na maioria das vezes, nem é citado, quanto mais remunerado.

Isso não se resume à promoção de estereótipos baseados no exotismo: está no ciclo de trend em que o Brasilcore é transformado. Trend é algo que nasce, estoura e morre, é assim que a moda funciona pra quem só está de passagem por uma estética. Identidade não tem esse ciclo. Ninguém supera a fase de ser de onde é. Chamar o Brasilcore de tendência é já um jeito de anunciar a validade dele: um prazo de vencimento que nunca existiu pra quem vive isso desde sempre.

Eles não criaram uma tendência

O timing da Copa do Mundo só escancara isso. De repente, vestir as cores do Brasil, camisetas esportivas, roupas largas, Juliet, havaianas, vira uma estética cool, pra quem, no resto do ano, nunca precisou pensar duas vezes sobre o que aquilo significava socialmente. Pra gente, não teve intervalo. A gente não vestiu Brasilcore pra Copa.

A discriminação e a marginalização de quem vem da periferia é muito maior do que dá pra descrever nesse texto (um dia podemos falar sobre isso). Isso vai além da crítica à exportação do Brasilcore. Mas não podemos deixar que pensem que criaram uma tendência. Nós respirávamos Brasilcore muito antes de pensarem em vestir verde e amarelo.

Foto by: Voz das comunidades

Minhas raízes

De onde eu venho, as cores vibrantes, o chinelo, as roupas largas e as misturas com camisetas esportivas sempre estiveram presentes. Esses elementos fizeram parte do vestuário da minha família. Os meus tios, quando mais jovens, iam nos bailes nos bairros próximos de casa com seus jacos, camisetas coloridas e os óculos Juliet. Os chinelos, mais especificamente as havaianas (não é publi), sempre estiveram nos pés da maioria dos brasileiros com acesso à marca, durante o verão.

Minha família descende de gente que saiu do interior de Minas Gerais rumo às periferias de São Paulo e, depois de um tempo, se estabeleceu na Zona Oeste. Não passaram a vida dentro de favela. Mesmo assim, viveram o Brasilcore.

A participação inegável das mulheres nesse cenário

Para além do que foi pontuado até aqui, é inegável a participação das mulheres nesse cenário. E esse movimento nos divide em duas posições: será que a moda liberta ou só está tornando possível a presença da torcedora feminina no futebol a partir de uma estética aceitável ao olhar masculino? Vou falar com vocês sobre isso no próximo texto.

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