O Tempo nas Passarelas

Mônica Pontes – Psicóloga Cínica | Modelo | Embaixadora EMG Model

O Tempo nas Passarelas: O que o Etarismo na Moda nos ensina sobre Saúde Mental

Até quando vamos fingir que a beleza tem data de validade? Em uma indústria que consome imagens em velocidade recorde, envelhecer diante das câmeras tornou-se um verdadeiro ato de resistência.
Como psicóloga clínica, modelo e embaixadora da agência Elian Gallardo Model, caminho diariamente entre a mente humana e a indústria da imagem. Essa vivência me permite olhar para os bastidores da moda com acolhimento e embasamento técnico, identificando dores que muitas vezes passam despercebidas. Uma das mais latentes hoje é o etarismo (ou etariedade).
O que é o Etarismo na Moda?
O etarismo é o preconceito, estereótipo ou discriminação baseado na idade. Na moda, ele se manifesta como uma espécie de “prazo de validade” invisível. Embora o mercado ensaie passos em direção à diversidade, a indústria ainda supervaloriza a juventude, tratando o envelhecimento natural como um obstáculo.
O etarismo não é apenas sobre o surgimento de rugas; é sobre o silenciamento da nossa história. É a mensagem implícita de que, após certa idade, a nossa presença deixa de ser comercializável. Essa pressão constante para ignorar o tempo gera cobranças estéticas severas e adoece a saúde mental de profissionais de todas as idades.
Para desarmar esse ciclo de ansiedade, podemos olhar para o etarismo através da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e da Terapia do Esquema:
1. A Ativação do Esquema de Defectividade
Na Terapia do Esquema, entendemos que carregamos padrões emocionais da infância. Quando a moda dita que apenas o jovem é belo, ela ativa o Esquema de Defectividade e Vergonha. A modelo passa a sentir que há algo de errado com ela simplesmente porque seu corpo e rosto estão mudando. O envelhecimento natural é interpretado pela mente como uma falha pessoal, gerando insegurança profunda.
2. A Armadilha do Pensamento “Tudo ou Nada”
A TCC nos mostra que o sofrimento não vem do tempo que passa, mas de como o interpretamos. É comum cair na distorção cognitiva do pensamento polarizado: “Se não sou mais a modelo jovem do início, minha carreira acabou”. Ignora-se que a maturidade traz elegância, presença de cena e um nicho de mercado maduro que cresce a cada dia e busca representatividade real.
3. Corpo-Trabalho vs. Identidade
O maior segredo para blindar a mente é separar o seu corpo da sua identidade. Na moda, o corpo é uma ferramenta de trabalho. O adoecimento começa quando você confunde essa ferramenta temporária com quem você é.
A verdadeira sofisticação não está na ausência de linhas de expressão, mas na presença de espírito. Uma modelo madura não apenas veste a roupa; ela empresta sua alma, sua postura e sua história para ela. Você é a sua história, sua inteligência, sua sensibilidade e sua capacidade de evoluir. A sua beleza não expira; ela acumula repertório.
Estratégia Prática: Fortalecendo o seu Adulto Saudável
Para lidar com a pressão do etarismo no dia a dia, pratique a reestruturação cognitiva em três passos rápidos:
  1. Identifique o gatilho: Perceba quando o medo da idade surgir (ex: ao notar uma nova linha de expressão ou ver um teste).
  2. Questione o pensamento: Pergunte-se: “Esse pensamento de que meu valor acabou é realista? O que minha maturidade me trouxe de positivo?”
  3. Crie uma resposta realista: Diga a si mesma: “Meu corpo muda porque estou viva. Minha idade traz uma bagagem e uma elegância que eu não tinha aos 18 anos. Meu valor como pessoa permanece intacto.”
    Amadurecer na moda pode ser um processo de colheita e reinvenção. Não permita
que uma indústria construída sobre tendências passageiras defina o valor da sua existência permanente. A sua trajetória é o seu maior patrimônio. Se você sente o peso dessas cobranças, o acompanhamento psicoterapêutico é um espaço seguro para fortalecer a sua identidade além do espelho.

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